Experiências difíceis nem sempre acontecem uma única vez. Em algumas histórias de vida, situações de negligência, rejeição, abuso ou insegurança se repetem durante anos, especialmente na infância ou em relacionamentos nos quais a pessoa não se sentia segura para se afastar.
Quando essas experiências permanecem sem processamento adequado, podem continuar influenciando a maneira como a pessoa percebe a si mesma, os relacionamentos e o mundo ao seu redor.
É nesse contexto que compreender o trauma complexo e a atuação da terapia EMDR pode ser importante. Desenvolvida por Francine Shapiro, a abordagem EMDR trabalha com o processamento de memórias difíceis e busca ajudar a pessoa a construir uma relação diferente com aquilo que viveu.

O que é o trauma complexo?
O trauma complexo está relacionado à exposição repetida ou prolongada a situações emocionalmente ameaçadoras, como negligência, abuso físico ou emocional, rejeição e outras experiências que acontecem de maneira contínua.
Diferentemente de uma experiência traumática isolada, o trauma complexo pode envolver uma sequência de acontecimentos que se acumulam ao longo do desenvolvimento.
Quando as experiências acontecem durante a infância
A infância é um período importante para a construção da percepção de segurança, autoestima e confiança.
Quando uma criança cresce em um ambiente marcado por medo, rejeição, negligência ou instabilidade, essas experiências podem influenciar a maneira como ela aprende a interpretar determinadas situações.
Na vida adulta, isso pode aparecer por meio de pensamentos e crenças como:
- “Eu não tenho valor.”
- “Não posso confiar em ninguém.”
- “Estou sempre em perigo.”
- “A culpa é sempre minha.”
Essas crenças não surgem simplesmente por escolha. Elas podem estar relacionadas às experiências que foram sendo registradas ao longo da história daquela pessoa.
Como o trauma pode continuar presente no cotidiano
Uma experiência pode ter terminado há muitos anos, mas determinadas reações emocionais podem continuar aparecendo no presente.
Gatilhos podem ativar respostas relacionadas ao passado
Uma situação aparentemente simples pode despertar medo, ansiedade, insegurança ou uma reação emocional muito intensa.
Isso acontece porque determinados estímulos do presente podem estar associados a experiências anteriores que ainda não foram adequadamente integradas.
A pessoa pode até reconhecer racionalmente que está segura, mas seu corpo e suas emoções podem reagir como se aquela ameaça ainda estivesse acontecendo.
Por isso, compreender o trauma não significa apenas lembrar do que aconteceu. É necessário compreender como essas experiências continuam influenciando a vida atual.
O Modelo de Processamento de Informação Adaptativo
A terapia EMDR foi desenvolvida pela psicóloga Francine Shapiro e fundamentada no modelo de Processamento de Informação Adaptativo (PIA).
Segundo esse modelo, o cérebro possui uma capacidade natural de processar e integrar experiências. Quando uma situação é muito intensa ou acontece em condições de grande vulnerabilidade, esse processamento pode ser prejudicado.
Quando uma memória permanece mal processada
Uma experiência difícil pode permanecer associada às emoções, pensamentos e sensações presentes no momento em que aconteceu.
Assim, determinadas situações do presente podem ativar respostas relacionadas à experiência passada.
No trauma complexo, esse processo pode envolver diferentes memórias conectadas entre si, formando padrões emocionais que influenciam a autoestima, os relacionamentos e a percepção de segurança.
Como o EMDR trabalha essas experiências?
O EMDR utiliza estimulação bilateral, que pode envolver movimentos oculares, estímulos auditivos ou estímulos táteis alternados, dentro de um processo terapêutico estruturado e conduzido por profissional capacitado.
O objetivo não é apagar uma memória nem fazer com que a pessoa esqueça aquilo que aconteceu.
Acessar, processar e integrar
Durante o processo terapêutico, o profissional pode ajudar o paciente a identificar experiências relacionadas às dificuldades atuais e trabalhar o processamento dessas memórias de maneira gradual e segura.
A partir desse processo, a experiência pode ser integrada de uma forma menos perturbadora.
O que antes parecia uma ameaça presente pode passar a ser reconhecido como algo que aconteceu no passado.
O EMDR pode ajudar na mudança de crenças negativas?
Uma das características importantes do trabalho com EMDR é a atenção às crenças negativas associadas às experiências.
Pensamentos como “eu sou culpado”, “não tenho valor” ou “não consigo me proteger” podem estar profundamente ligados às memórias traumáticas.
Com o processamento terapêutico, pode surgir uma percepção mais adaptativa sobre a própria história e sobre os recursos que a pessoa possui atualmente.
A mudança não significa negar o que aconteceu
Ressignificar uma experiência não significa dizer que ela foi positiva ou que não deveria ter causado sofrimento.
Significa poder olhar para aquela história reconhecendo que ela pertence ao passado e que, no presente, existem novas possibilidades de escolha, segurança e compreensão.
O objetivo não é apagar o passado
Uma dúvida comum sobre terapias voltadas ao trauma é se o objetivo seria fazer a pessoa esquecer aquilo que aconteceu.
Não é essa a proposta.
O objetivo do EMDR é trabalhar a maneira como a memória está sendo processada e a carga emocional associada a ela.
A lembrança pode continuar existindo, mas sem necessariamente provocar a mesma intensidade de sofrimento.
Da ameaça presente para uma experiência integrada
Quando uma memória é integrada de maneira mais adaptativa, a pessoa pode conseguir falar sobre o acontecimento sem sentir que está novamente vivendo aquela situação.
Essa diferença pode ser importante para quem passou anos evitando determinados assuntos, lugares, relacionamentos ou situações por causa das reações provocadas pelas memórias.
Recuperar a segurança interna é parte do processo
O trabalho com trauma complexo não envolve apenas uma memória específica. Muitas vezes, também envolve reconstruir a relação da pessoa consigo mesma.
Isso pode incluir o desenvolvimento de uma percepção mais segura sobre seus próprios limites, necessidades, emoções e capacidade de fazer escolhas.
A psicoterapia pode oferecer um espaço de acolhimento para que essas experiências sejam compreendidas sem julgamento e trabalhadas de maneira individualizada.
Quando procurar ajuda profissional?
Nem toda dificuldade emocional está necessariamente relacionada a um trauma complexo. Por isso, o diagnóstico e a indicação de tratamento devem ser realizados por um profissional qualificado.
Entretanto, procurar ajuda pode ser importante quando reações emocionais intensas, ansiedade persistente, dificuldades nos relacionamentos ou crenças negativas sobre si mesmo começam a interferir significativamente na vida cotidiana.
A avaliação profissional permite compreender melhor a história de cada pessoa e identificar quais estratégias terapêuticas podem ser adequadas.
Conclusão
O trauma complexo pode deixar marcas profundas porque não está necessariamente relacionado a um único acontecimento, mas a experiências que se repetiram ou permaneceram durante períodos importantes da vida.
A perspectiva desenvolvida por Francine Shapiro por meio do EMDR oferece uma forma estruturada de trabalhar memórias difíceis e suas consequências emocionais.
O objetivo não é apagar o passado. É permitir que aquilo que aconteceu possa ocupar um lugar diferente na história da pessoa, sem continuar determinando suas reações no presente.
Quando existe sofrimento relacionado a experiências passadas, buscar ajuda profissional pode ser um passo importante para compreender esses padrões e construir novas possibilidades de segurança, autoestima e equilíbrio emocional.
Se experiências do passado ainda influenciam suas emoções, seus relacionamentos ou a maneira como você enxerga a si mesma, a Psicóloga e Sexóloga Valéria Récio (CRP 08/41030) pode ajudar você a compreender esse processo com acolhimento e acompanhamento profissional.
A Valéria é especialista em Terapia EMDR, com atendimento presencial em Londrina – PR e online para todo o Brasil.
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